Brinquedoteca

Um Lugar para brincar

"A brinquedoteca é um lugar especial, é um clube infantil, onde as brincadeiras são atividades primordiais. Primeiro, é um espaço lúdico cultural, lugar das brincadeiras, das artes, dos jogos, atividades denominadas lúdicas, que oportunizam o estar em grupo, o fazer amigos, o aprender e o ensinar, transmitindo e produzindo cultura".
Suely Scardini em: 
Brinquedoteca - Um lugar para brincar.


Aqui estão alguns exemplos de brinquedotecas:

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Brinquedoteca Escolar

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Brinquedoteca Hospitalar

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Brinquedoteca Comunitária

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Brinquedoteca Circulante

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Brinquedoteca na Empresa

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Brinquedoteca Especializada

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Em Casa e no Condomínio

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Valorizando as brincadeiras infantis

10 de Abril 2025 | Suely Scardini

A dinâmica do mundo moderno reserva aos pais pouco tempo para disporem aos filhos e participarem mais de perto do seu desenvolvimento. Isso provoca em muitos pais um sentimento de culpa.


Porém, vale ressaltar que ao invés de preocuparem-se com a quantidade de tempo dedicado aos filhos, é importante que saibam aproveitar com qualidade o tempo que possam estar juntos. Compreender o universo infantil é fundamental quando fala-se na qualidade da relação entre pais e filhos.

Na infância a atividade lúdica – brincadeira – é a principal, em torno da qual organizam-se as demais atividades que promovem aprendizagem do mundo que cerca as crianças. Brincar em casa, na rua, na escola, no clube, na brinquedoteca, sozinho ou com companheiros, com objetos – brinquedos em especial – ou apenas no imaginário são situações observadas no cotidiano infanto-juvenil. Toda oportunidade que têm transformam suas atividades em brincadeiras e é nessa dimensão que os pais precisam estar atentos e participativos.

O brincar é amplamente reconhecido como uma atividade importante por favorecer o desenvolvimento humano integral – biopsicossocial.

Através do brincar a criança tem a possibilidade de experimentar, criar, acertar, errar, desenvolver suas habilidades cognitivas, afetivas, sociais e psicomotoras, formadoras de competências futuras.

O contexto social atual mostra que as crianças dos grandes centros urbanos estão de forma acelerada sendo cerceadas na sua condição de brincar, e até mesmo de serem crianças. Daí a importância de se preservar um espaço e tempo diferentes daqueles que a sociedade disponibiliza às crianças, 
favorecendo-lhes o livre brincar onde a espontaneidade é valorizada e a criatividade estimulada. 

O brincar facilita o relacionamento interpessoal, os grupos de brincadeiras funcionam como microssociedades onde as crianças estabelecem suas próprias regras, transmitem, criam e recriam a cultura de sua sociedade sendo, desta forma, capazes de construir conceitos e consciência voltadas para a coletividade e o bem-estar comum.

Aqui fica o convite ao leitor para construirmos um mundo lúdico, onde brincar junto com a criança possibilita estreitamento de laços afetivos, a construção de vínculos sólidos e duradouros imprescindíveis na formação de uma personalidade saudável, o que torna a vida uma descoberta feliz tanto para a criança quanto para o adulto que se (re)descobre como indivíduo lúdico.

  • Suely Scardini é Psicóloga, Gestora da Fábrica de Brincadeiras e Brinquedista.

Brinquedoteca e interculturalidade na Amazônia Paraense

2011 | Suely Scardini

RESUMO: O presente trabalho busca fazer uma revisão de literatura acerca da brinquedoteca, ressaltando sua importância para o estudo do brincar, brincadeiras e brinquedos na infância. Relacionar o conceito de cultura lúdica, conforme descrito por Brougère (1995), com os principio da educação intercultural e da ecologia de saberes de Boaventura (2010), valorizando as vivências lúdicas específicas na Amazônia paraense. Conclui-se destacando a importância de se conhecer a cultura lúdica de um povo que é marcado diversas etnias culturais ressaltando o lugar privilegiado da brinquedoteca como espaço de interculturalidade.

PALAVRAS-CHAVE: Cultura lúdica, Brinquedoteca, Infância e Interculturalidade. 


1. Introdução
Tratar-se-á de refletir acerca da brinquedoteca como instrumento de intervenção na construção do diálogo entre saberes de diferentes grupos sociais e culturais na Amazônia paraense, favorecendo a interculturalidade, pautada nas concepções atuais da educação intercultural. O pensar da brinquedoteca na Amazônia, sua importância social como espaço educativo e acervo cultural da humanidade, oportuniza uma reflexão e discussão de práticas socioeducativas favorecedoras de convívio saudável entre indivíduo/indivíduo e indivíduo/meio ambiente, preservando e fomentando a cultura lúdica da infância dos amazônidas. 

Conjuga estudiosos de diferentes áreas do conhecimento que em suas pesquisas apontam a necessidade de ruptura com o fazer e saber da ciência moderna, a qual desconsidera os saberes não científicos. A fim de estabelecer um diálogo com maior pluralidade entre seus pensamentos no sentido de vislumbrar uma intervenção socioeducativa que possibilite a descoberta de novos significados, conduzida por novas experiências, ao invés da aquisição artificializada e imposta de significados criados exclusivamente por outrem.

Valorizando as vivências e saberes infantis, dando “voz” ao comportamento singular das crianças no processo de construção de seus conhecimentos de mundo, e sem medos de revelar os fenômenos que envolvem o (seu próprio) universo lúdico infantil e aprender, conjuntamente, com eles e a partir deles.  

Neste sentido, este artigo pretende propor aos interessados nos estudos sobre cultura lúdica infantil, transcender o visível e tornar séria a relação que as crianças estabelecem com jogos, brinquedos e brincadeiras transmitidos ao longo de gerações. Ressaltar a reflexão sobre a ação da criança que brinca, e, nesse brincar cria, transforma e transmite a cultura de seu povo, como postura de novas proporções em prol de uma educação emancipatória.

2. A fala infantil - A cultura lúdica é produto da interação social 
“Vamos brincar?”, assim é feito o convite entre as crianças para dar início a um fazer próprio de seus processos de aprendizagem, sobre si mesmas, e do mundo que as cercam. Aprendizagens de códigos, símbolos, regras, organizações e papéis sociais; linguagens diversas criadas e legitimadas ao longo da história das sociedades, construtos de identidade cultural. 

• A brincadeira é cultura porque todo mundo brinca, até as mães e os pais. (Diana, 9 anos)
• Têm brincadeiras que são iguais nos lugares do mundo, do país, e, outras não. (Miriam, 9 anos) 

Estudiosos da filosofia, psicologia, sociologia, educação apontam em pesquisas que a criança é agente ativo na construção do conhecimento, portanto, agente ativo na história cultural de seu povo. 

Tal processo é construído a partir das interações que o indivíduo estabelece com seu meio natural e social, mediado pelas atividades (Leontiev, 1988). Um fenômeno de natureza dialética e dinâmica que integra o ser humano numa cultura (Carvalho, 2003).

Carvalho (2003) mostra que a criança participa ativamente, e, muitas vezes, como ator principal na transmissão e recriação da cultura, que se dá num contexto microssocial – o grupo de brincadeiras
 
“[...] em que se constituem redes de relações em que os papéis são atribuídos dinamicamente no desenrolar das interações, em que conhecimentos, regras e procedimentos são continuamente, trocados, reformulados, criados, repassados. Desses, alguns permanecem no tempo, outros se perdem ou vão se modificando.” (p. 16) 

A ideia proposta por Gilles Brougère (1998) é de uma cultura lúdica, que denomina como:

“[...]conjunto de regras e significações próprias do jogo que o jogador adquire e domina no contexto de seu jogo. Em vez de ver no jogo o lugar de desenvolvimento da cultura, é necessário ver nele simplesmente o lugar de emergência e de enriquecimento dessa cultura lúdica, essa mesma que torna o jogo possível e permite enriquecer progressivamente a atividade lúdica. O jogador precisa partilhar dessa cultura para poder jogar." (p. 4)

A constituição da cultura lúdica ao longo da história humana é marcada por estreitas relações socioculturais particulares a cada sociedade. Cada grupo social estabelece sua cultura lúdica local.

As atividades lúdicas – brincadeiras – estão presentes desde a mais tenra idade, e são o conjunto de ações transmitidas de geração para geração construindo identidade de um grupo social, ao mesmo tempo que de seus membros, o que as caracteriza com manifestações culturais (Carvalho, 2003).

A Cultura lúdica da comunidade na qual a criança está inserida define as possibilidades de brincadeiras, jogos, brinquedos surgirem.
 
3. Brincadeiras, jogos e brinquedos – manifestações culturais

• Antigamente inventavam carrinhos de madeira e bonecas de pano e porcelana e hoje têm as Suzis, as Barbies, os carrinhos de pilhas. (Carlos, 9 anos)

Para Carvalho (2003), brincadeiras são rituais que se transmitem, repetidos ou recriados, em ambientes socioculturais distintos. As brincadeiras ao mesmo tempo em que têm especificidades regionais são universais, fazendo parte do patrimônio cultural da humanidade e organizando a ludicidade humana.

Através das interações sociais nos grupos de brincadeiras – considerados por Carvalho (2003) como microssociedades – a criança aprende sobre o mundo real e simbólico que a cerca, e mais, até a adolescência as atividades dominantes são aquelas que derivam do jogo. 

Kishimoto (1993) ao estudar a tradição oral dos jogos, considera o jogo tradicional “como parte da cultura popular, guarda a produção cultural de um povo em certo período histórico..., e mais, ...está sempre em transformação, incorporando criações anônimas das gerações que vão se sucedendo.” (p. 15). Argumentação que reafirma as observações de Carvalho e Brougère. 

A vivência lúdica favorece a construção e reconstrução de significados da vida real, a compreensão de atribuições e papéis, estimula a inteligência a partir do desenvolvimento da imaginação e criatividade, e proporciona o aprender-fazendo, tornando a aprendizagem significativa. 

A criança é capaz de desenvolver sozinha algumas atividades essenciais, mas não pode sozinha satisfazer suas necessidades vitais de sobrevivência e/ou de conhecimentos do mundo real e simbólico. O mundo das atividades humanas se abre aos poucos para ela (Leontiev, 1991). Assim sendo, o adulto e/ou a criança mais experiente tem papel primordial em sua aprendizagem e desenvolvimento. 

Brougére (2006) trata em seu estudo sobre a cultura infantil de romper com o mito da brincadeira natural, inata, busca outra perspectiva, assim suas ideias são postas em seus escritos: 

“A criança está inserida desde o seu nascimento num contexto social e seus comportamentos estão impregnados por imersão inevitável. Não existe na criança uma brincadeira natural. A brincadeira é processo de relações interindividuais, portanto, de cultura.” (p. 97)

Esse autor reitera a conclusão de Leontiev de que é na interação social que a criança é iniciada na brincadeira, quando bem pequena é brinquedo daquele que cuida dela. Portanto, brincar pressupõe uma aprendizagem social.

Nessa interrelação humana as brincadeiras ganham parceiros singulares - os brinquedos - introduzidos pelos adultos no universo lúdico infantil. E, ao brincar, a criança confere significados que possibilitam a compreensão de determinada sociedade e cultura. 

Gilles Brougère (2006) ressalta o brinquedo “como produto de uma sociedade dotada de traços culturais específicos.” (p, 8). O autor em Brinquedo e Cultura aponta que o brinquedo possui forte valor cultural, já que cultura é um conjunto de significações produzido pelo homem em determinado momento da história (argumento complementar a ideia de Carvalho de que as atividades lúdicas possuem ao mesmo tempo caráter especifico e universal). 

O brinquedo coloca a criança na presença de reproduções e representações do e no cotidiano, da e na natureza, construções humanas. Expressa o mundo real, com seus valores, modos de pensar e agir acrescidos pelo imaginário do objeto, incorporado num imaginário pré-existente criado pelos adultos. 

• O brinquedo é uma coisa que a criança pega pra brincar. (Marco, 8 anos) 
• O brinquedo ajuda na brincadeira. (Paula, 9 anos) 
• Quando eu brinco, eu sinto alegria. (Ana Clara, 7 anos) 


Para o estudioso holandês Johan Huizinga (1993), brincar se caracteriza por uma atmosfera de alegria, de espontaneidade, o que denomina “espírito lúdico”. Apenas por iniciativa própria ou por livre adesão a criança se engaja em atividade lúdica, portanto, espontaneidade é condição intrínseca ao brincar.  

Brougère (2006) ressalta que ao brincar a criança estabelece comunicação e interpretação, a brincadeira toma uma significação específica, surge uma situação particular: a decisão de participar da brincadeira.

“Sem livre escolha, ou seja, possibilidade real de decidir, não existe mais brincadeira, mas uma sucessão de comportamentos que têm sua origem fora de quem brinca.” (p.100)

E que: 

“A brincadeira aparece como um sistema de sucessão de decisões. Esse sistema se exprime através de um conjunto de regras, porque as decisões constroem um universo lúdico, partilhado ou partilhável com outros.“ (p.101)  

As ciências humanas e sociais vêm pesquisando sobre o brincar e sua relevância como atividade primordial especialmente na infância. Assim como, demonstram a importância de garantir tempo e espaço para as atividades lúdicas infantis.

Brincar em casa, na rua ou na escola, no quintal ou na floresta, sozinho ou com companheiros, com objetos ou apenas no imaginário, são situações que encontramos no repertório diário das crianças, toda oportunidade que têm, transformam sua atividade em brincadeira. 

Na segunda metade do Século XX estudiosos da educação, antropologia, sociologia, filosofia e psicologia voltaram sua atenção para as indagações acerca do comportamento de brincar, da cultura lúdica e dos brinquedos. Fundamentando teoricamente a implantação de brinquedotecas em diversos segmentos institucionais.  

4. Brinquedoteca – um lugar para brincar

Incontáveis estudos têm sido realizados sobre a importância do brincar dos jogos, brinquedos e brincadeiras no cotidiano infantil, apontando para a necessidade de garantir tempo e espaço para as atividades lúdicas.  

Somente no século XX é que a concepção de infância é reestruturada, passando a crianças ser um sujeito de direitos, reconhecida como pessoa e a necessidade de respeito à dignidade dos pequenos em formação. Foi durante o referido século, que se estabelecem leis de proteção à criança e à sociedade. Assim o movimento dos direitos humanos volta-se para a criança. Sendo a família, o estado e a sociedade responsáveis pela prática efetiva de normas de conduta que garantam a não violação dos direitos humanos fundamentais.

Neste contexto mundial nasce, gradativamente, um novo espaço: a brinquedoteca que se propõe ao resgate do lúdico, a garantia do direito de brincar, a valorização da infância. No Brasil tem sido aliada de projetos educacionais como espaço que fomenta pais e educadores o (re)pensar sobre educação, cultura e infância. Surge na década de 80 como proposta de instituição educacional onde a atividade lúdica é estimulada e valorizada, provocando reflexões, produzindo pensamentos e explicações, e representando um novo sistema de aprender a aprender (CUNHA, 1998). 

Primeiro, é um espaço organizado para estimular o brincar, a imaginação, a criatividade, a sociabilidade... Segundo é um espaço lúdico-cultural, lugar das brincadeiras, das artes, dos jogos, atividades denominadas lúdicas, que oportunizam o estar em grupo, o fazer amigos, o aprender e o ensinar, transmitindo e produzindo cultura. 

A espontaneidade é fundamental para as atividades na brinquedoteca, a ludicidade está intrinsecamente relacionada com o fazer espontâneo – brincar porque quero, porque gosto. Interesse individual, que é manifesto coletivamente nos grupos de brincadeiras e que está envolto por regras socialmente estabelecidas por indivíduos mais experientes. 

Regra e livre escolha caminham juntas no universo lúdico infantil, não é tratada como lei pelas crianças, mesmo sendo derivadas de regras externas, socialmente estabelecidas. Só têm valor se acordada por aqueles que brincam juntos e no momento específico da brincadeira. 

As atividades lúdicas são insubstituíveis na infância, agregam em si valores que podem ser ressaltados pelos que acompanham as crianças em brincadeiras. Valores como respeito mútuo, respeito à coletividade, respeito aos objetos e materiais coletivos, respeito às regras, respeito à diversidade, respeito às diferenças; auxiliares no construto de consciência de responsabilidade, liberdade e solidariedade. 

Vigotski (1988) aponta que na atividade consciente do homem é que a grande maioria dos conhecimentos e habilidades deste é formada, por meio da assimilação da experiência de toda humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível no processo de aprendizagem. As condições materiais e sociais da atividade humana são determinantes na formação da consciência, cujas transformações (atividades) alteram e são alteradas por estas condições. 

A brinquedoteca surge como lugar privilegiado de aprendizagens coletivas, desempenha um papel social primordial na formação e sensibilização humana à interculturalidade. 

5. Cultura lúdica infantil na Amazônia paraense: contexto cultural e os saberes que permeiam suas atividades lúdicas

O território amazônico é abundante em recursos naturais, também o é em diversidade cultural. Um território formado por floresta, rios imensos, igarapés, mares; constituindo áreas de terra firme, ilhas, várzeas, igapós; mata, muita mata; fauna e flora exuberantes; muita chuva, muito sol. Favorece uma integração única de seus moradores com as belezas naturais, possibilitam vivências lúdicas repletas de simbolismo, encantamento e imaginação. Convida a criança correr, pular, escalar, cantar, dançar, nadar, imitar, criar seu próprio universo lúdico, com liberdade tão favorável à infância.

Brincar com amigos, animais, árvores, rios, com objetos criados no universo lúdico regional, como brinquedos de miriti, canoas de casca árvores, maracás, arco e flecha, pião, peteca, boneca de palha e de retalhos; brincadeiras tais como: cemitério, pular macaca, bater pira, ciranda, contar histórias..., são algumas das manifestações lúdico-culturais que ocorrem no interior da Amazônia paraense. 

Nas cidades as restrições de espaço e tempo para brincar limitam as vivências lúdicas das crianças urbanas, o que traz outra realidade a ser imitada, a do adulto tecnológico-moderno. A elas resta um brincar monitorado restrito aos poucos quintais, playgrounds, escola, praça, parque, museu zoobotânico, parcas brinquedotecas comunitárias na capital, a presença de games é massificada nas cidades. Na periferia ainda observa-se adultos e crianças brincando de pipas, por exemplo, contudo é de extremo risco. 
Os estudos recentes de pesquisadores amazônidas trazem a luz uma cultura lúdica diversa e fabulosa, mas onde está o uso desses saberes lúdicos, sua valorização como constituinte da identidade cultural do humano adulto e criança amazônidas? 

Assim como a criança amazônida se integra à natureza nos momentos de suas brincadeiras para ir dando forma a sua identidade cabocla. Pode a ciência integrar saberes científicos e não-científicos num fazer também integrado de ecologia de saberes, educação intercultural e brinquedoteca? E assim, fomentar a construção de consciências e condutas humanas que refletem a interculturalidade na região amazônica interligada ao planeta? 

Pode ser utopia, como sugere Boaventura (apud. CAUDAU, 2008): “é certamente tão utópico quanto o respeito universal pela dignidade humana.” (p.55).

Boaventura em sua obra Epistemologia do Sul (2010) chama atenção para a necessidade uma ruptura radical com o pensamento abissal construído ao longo da história da ciência moderna. Que monopoliza o saber considerado legítimo e define o que é certo ou errado. Os conhecimentos leigos, populares, camponeses, indígenas são invisíveis, pois não são valorizados pelos conhecimentos dominantes, mesmo que sirvam de inquirição científica. 

A ecologia de saberes surge como pensamento pós-abissal, concebe a diversidade epistemológica do mundo – “o reconhecimento da existência de uma pluralidade de formas de conhecimento” (SANTOS, 2010). Baseia-se na ideia de que o conhecimento é interconhecimento. Para o autor:

 “[...]é necessária uma reavaliação das intervenções e relações concretas na sociedade e na natureza que os diferentes conhecimentos proporcionam.” (p.60) 

E mais: 

“[...]deve-se dar preferência às formas de conhecimento que garantam a maior participação dos grupos sociais envolvidos na concepção, na execução, no controle e na fruição da intervenção.” (p.60) 

Possibilitando ultrapassar as zonas escurecedoras da ciência moderna - do Norte - dando voz aos saberes silenciados de povos – do Sul – com antigas tradições e conhecimentos de mundo que favoreceram a preservação de sua cultura até um dado momento da história.

Junto ao paradigma emergente surge a brinquedoteca – espaço de práticas lúdico-culturais – como ferramenta de intervenção socioeducativa privilegiada. Uma proposta alternativa que vem exercendo forte influência dentro dos segmentos sociais na qual está inserida, por introduzir um novo sistema de aprender que provoca transformação no pensar, uma nova postura educacional (CUNHA, 1998). 

Para Nylse Cunha (1998) a brinquedoteca emerge de uma nova postura existencial e ressalta: 

“[...]um novo paradigma surge quando existe a consciência de um grande equívoco e a aspiração por uma realidade mais verdadeira. Baseia-se nas descobertas mais avançadas da ciência e mais aprofundadas dos significados.” (p.20). 

Nesta perspectiva a brinquedoteca acolhe em seu fazer a educação intercultural que tem como proposta a mudança de atitudes humanas pautadas e fundamentadas em valores que promovam o bem-estar de todos, valorizando e reconhecendo as diferenças culturais, a diversidade de saberes e práticas, numa perspectiva crítica e emancipatória que promova os direitos humanos e o processo de desenvolvimento sustentável.    

Conclusão


A construção de saberes está inserida no contexto cultural de um povo, que cria e pode promover transformações sociais buscando modelos de sustentabilidade frente ao mundo globalizado, respeitando e estabelecendo a cultura de cuidados e integração com o meio ambiente e seus habitantes. Mais especificamente no contexto amazônico, tem sido silenciados saberes que necessitam ser preservados e acima de tudo valorizados como integrantes da cultura identitária de seu povo. 

Numa perspectiva da educação intercultural o fortalecimento de conceitos como igualdade na diferença, direitos universais humanos, tolerância, sustentabilidade local, planetária, as relações entre os homens, a natureza e o planeta, favorecem a construção de conhecimentos que geram cooperação mútua, fraternidade, solidariedade e respeito entre todos que habitam a Terra, sem distinções, criando novo modo de ser no mundo. 

A brinquedoteca é espaço que surge com a proposta da ruptura da educação de massa no Brasil. No contexto amazônico pode ser instrumento de intervenção singular para a integração de saberes lúdicos de populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas e urbanas, valorizando as atividades lúdicas e a infância dos amazônidas, Pois torna-se acervo da cultura lúdica local e da humanidade. 

Outro fator é importante ser destacado, a brinquedoteca na Amazônia paraense torna-se importante espaço de garantia e conscientização dos direitos infantis, estabelecidos no Estatuto da criança e do adolescente brasileiro. 

As crianças são agentes em potencial de transmissão, reprodução e criação da cultura lúdica de uma sociedade em dado momento histórico. Valorizar os conhecimentos infantis amazônicos é também valorizar saberes ancestrais de integração homem/natureza. Para a criança há liberdade em integrar saberes do novo milênio que avançam no sentido de um desenvolvimento planetário sustentável em suas atividades lúdicas. Um exemplo é a construção de brinquedos com materiais reaproveitáveis. 

Na brinquedoteca, brincar junto com a criança é oportunidade de construir uma relação dinâmica, espontânea de sentimentos e valores, e, fidedigna ao processo de escuta e observação. Quando brinca a criança experimenta, descobre, inventa, exercita e confere habilidades, o mesmo se dá com o adulto, sendo este educador sensível transforma esta interação em momento para coleta de dados importantíssimos para a construção de seu saber/fazer. 

Um desafio para o futuro é dar ênfase a problemática da sobrevivência de culturas infantis de populações que são integrantes da região amazônica e guardam saberes preservacionistas de matas, rios, fauna e flora, assunto hoje pertencente à consciência universal. Formada por etnias européia, africana e indígena na Amazônia há riqueza de conhecimentos que brota da diversidade cultural, da mistura de povos tão distintos que se tornam uno. 

A Ecologia de Saberes, como epistemologia desestabilizadora, propõe dar credibilidade as construções cognitivas não científicas que têm intervenção significativa no mundo. Em exercício de autoreflexividade, perguntas constantes e respostas incompletas surgem na busca de uma visão abrangente do não sabido.

Há um longo caminho a percorrer na mudança de postura educacional, para lembrar Einstein que se refere a pesquisa como “uma aventura intelectual envolta em prazer, própria de quem está disposto a correr riscos e enfrentar o desconhecido.” (apud. CUNHA, 1997). 

Coragem de errar, ter interesse de realizar um processo criativo, trilhar caminhos ainda não trilhados, construir autonomia de pensamento. São estes alguns dos princípios que fundamentam o paradigma da brinquedoteca e que ao encontrar-se com as ideias de cientistas sociais como Boaventura e Brougére, é criada atmosfera de condições favoráveis a fertilidade de interconhecimentos capaz de auxiliar na construção de uma humanidade renovada, que preserva e cultiva valores sociais de respeito às diferenças, cooperação e igualdade de direitos (nas diferenças). Tornando a vida no planeta, sustentável. 

Referências
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CARVALHO, A. M. (org.) Brincadeira e cultura: viajando pelo Brasil que brinca. São Paulo, Casa do Psicólogo, vol I, 2003. 

CAUDAU, V. M. Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v 13, n 37, p. 45-56, jan-abr, 2008. 

CUNHA, N. Brinquedoteca Brasileira. In: SANTOS, Santa Marli (org.). A brinquedoteca em diferentes contextos. Rio de Janeiro, Vozes. p 13 a 22, 1997. 

BROUGÈRE, G. Brinquedo e cultura. São Paulo, Cortez, 2006. BROUGÉRE, G. A criança e a cultura. Revista da Faculdade de Educação. São Paulo, v. 24, n 2, jul/dez, 1998. 

HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1993. 

KISHIMOTO, T. Jogos tradicionais infantis: o jogo, a criança, a educação. Petrópolis: Vozes, 1993.

LEONTIEV, A. Desenvolvimento do psiquismo na criança. In: VYGOTSKY, Lev. et all. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo, Ícone, p. 286-313, 1988. 

LEONTIEV, A. Psicologia e Pedagogia: bases psicológicas da aprendizagem e do desenvolvimento. São Paulo: Moraes, 1991. 

NETO, M. O enigma Amazônia: desafio ao futuro. Belém, Cejup, 1991. 

SANTOS, B. MENESES, Maria Paula (orgs.). Pensamento pós-abissal. In: Epistemologias do Sul. São Paulo, Cortez, 2010. 

VYGOTSKY, L. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo, Ícone, 1988

VYGOTSKI, L. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 2000. 

    Aqui abaixo está um artigo escrito para a Revista Caminhos Alternativos.

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